Livro - No Deserto da Tentação | Ellen G. White Books

No Deserto da Tentação

Condescendência Própria Disfarçada de Religião

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Todos estão pessoalmente expostos às tentações que Cristo venceu, mas a força é provida para todos no poderoso nome do grande Conquistador. Todos devem, por si mesmos, vencer individualmente. Muitos caem nas mesmíssimas tentações com as quais Satanás assaltou a Cristo.

Apesar de ter Cristo ganho uma vitória incalculável em favor do homem, vencendo as tentações de Satanás no deserto, esta vitória não lhe será de nenhum benefício, a menos que ele também ganhe a vitória por sua própria conta.

O homem tem agora uma vantagem sobre Adão, nesta guerra contra Satanás, porque tem a experiência de Adão na desobediência e sua conseqüente queda para alertá-lo a afastar-se de seu exemplo. O homem também tem o exemplo de Cristo ao vencer o apetite e as diversas tentações de Satanás, derrotando o poderoso inimigo em todos os pontos e saindo vitorioso em cada provação. Se o homem tropeçar e cair sob as tentações de Satanás, não terá desculpas porque ele tem a desobediência de Adão para alertá-lo e a vida do Redentor do mundo como um exemplo de obediência e resignação, bem como a promessa de Cristo de que "ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no Meu trono, assim como Eu venci e Me assentei com Meu Pai no Seu trono". Apoc. 3:21.

Condescendência Própria Disfarçada de Religião

Cristãos professos tomam parte em festividades


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e cenas de divertimentos que degradam a religião de Jesus Cristo. É impossível que estes que desfrutam das numerosas reuniões sociais e festivas da igreja somente por prazer, tenham um amor ardente e sagrada reverência por Jesus. Suas palavras de alerta e instruções não têm nenhuma repercussão na sua mente. Deveria Cristo vir a essas reuniões que são absorvidas em brincadeiras e divertimentos frívolos, onde a melodia solene de Sua voz fosse ouvida em bênção, dizendo: "Paz seja nesta casa"? Luc. 10:5. Como poderia o Salvador do mundo alegrar-Se com cenas de divertimento e leviandade?

Os cristãos e o mundo unem-se em um coração e espírito nestas ocasiões de festas. O Varão de Dores, que experimentou as angústias, não será bem-vindo nestes lugares de diversão. Os amantes do prazer e da suntuosidade, imprudentes e frívolos, ajuntam-se nos salões e o esplendor e os enfeites da moda são vistos por todos os lados. Os ornamentos das cruzes de ouro e pérola, que representam o Redentor crucificado, adornam as pessoas. Mas Aquele que essas jóias altamente preciosas representam não tem valor e não é bem-vindo nas reuniões. Sua presença seria um constrangimento em suas hilaridades e divertimentos sensuais, lembrando-os do dever negligenciado e trazendo-lhes à lembrança pecados ocultos que Lhe produziram semblante pesaroso e olhos tristes e lacrimosos.

A presença de Cristo seria positivamente dolorosa nesses ambientes de prazer.


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Certamente ninguém O convidaria para lá, porque Seu semblante está assinalado por tristeza maior do que a dos filhos dos homens, por causa desses divertimentos que tiram Deus da mente e tornam a estrada atraente para o pecador. Os encantamentos dessas cenas excitantes pervertem a razão e destroem a reverência pelas coisas sagradas. Ministros que professam ser representantes de Cristo, freqüentemente lideram esses divertimentos frívolos. "Vós sois", disse Cristo, "a luz do mundo. ... Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos Céus." Mat. 5:14 e 16. De que maneira a luz da verdade brilha daquele que é fútil e só busca o prazer? Os professos seguidores de Cristo que cedem ao divertimento e às festividades não podem ser participantes dos sofrimentos de Cristo. Não têm nenhum senso dos Seus sofrimentos. Não têm interesse em meditar sobre desprendimento e sacrifício. Têm pouco interesse em estudar sobre esses pontos que assinalam a história da vida de Cristo, sobre os quais repousa o plano da salvação, mas imitam o antigo Israel, que comeu, bebeu e levantou-se para divertir-se. A fim de copiar corretamente um modelo, devemos estudar cuidadosamente o seu desenho. Se realmente devemos vencer como Cristo venceu, devemos misturar-nos na companhia dos que são santificados e glorificados diante do trono de Deus. É da mais alta importância que estejamos familiarizados com a vida de nosso Redentor e que


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neguemos a nós mesmos como fez Cristo. Devemos enfrentar as tentações e transpor obstáculos através de labutas e sofrimentos e, em nome de Jesus, vencer como Ele venceu.

A grande tentação de Jesus no deserto quanto ao apetite visava deixar ao homem um exemplo de desprendimento. Este prolongado jejum tinha em vista convencer os homens quanto à pecaminosidade das coisas às quais o professo cristão cede. A vitória que Cristo ganhou no deserto visava mostrar ao homem a pecaminosidade das coisas em que eles têm tido tanto prazer. A salvação do homem estava na balança, para ser decidida pela tentação de Cristo no deserto. Se Cristo saísse vitorioso sobre o apetite, então haveria a possibilidade do homem, de vencer. Se Satanás ganhasse a vitória através de sua sutileza, o homem estaria escravizado ao poder do apetite, numa cadeia de condescendência sobre a qual não teria poder moral para quebrá-la. Unicamente a natureza humana de Cristo nunca poderia ter suportado este teste, mas Seu poder divino combinado com a natureza humana ganhou a vitória infinita em favor do homem. Nosso representante nesta vitória levantou a humanidade na escala de valor moral diante de Deus.

Os cristãos que compreendem o mistério de piedade, que têm um alto e sagrado senso da expiação, que reconhecem nos sofrimentos de Cristo no deserto uma vitória ganha para eles, verão tão assinalado contraste entre estas coisas e as reuniões da igreja em busca de prazeres e condescendência


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com o apetite, que se voltariam com desgosto destas cenas de festanças. Os cristãos deveriam fortalecer-se grandemente comparando honesta e freqüentemente sua vida com a verdadeira norma, a vida de Cristo. As numerosas reuniões sociais, festivais e piqueniques que constituem uma tentação ao apetite exagerado e aos divertimentos, os quais levam à leviandade e ao esquecimento de Deus, não podem encontrar sanções no exemplo de Cristo, o Redentor do mundo, o único padrão seguro que o homem deve copiar se deseja vencer como fez Cristo.

Apresentamos a norma infalível para todos os cristãos. Disse Cristo: "Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas, no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos Céus." Mat. 5:13-16.

A luz do Céu deve ser refletida ao mundo através dos seguidores de Cristo. É obra vitalícia dos cristãos dirigir a mente dos pecadores a Deus. A


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vida do cristão deve despertar no coração dos mundanos uma visão mais elevada da pureza da religião cristã. Isto fará dos crentes o sal da Terra, o poder salvífico no mundo; porque um caráter cristão bem-desenvolvido é harmonioso em todas as suas partes.

Tememos pela juventude de nossos dias por causa do exemplo que lhes é dado por aqueles que professam ser cristãos. Não podemos fechar a porta da tentação à juventude, mas podemos educá-la para que suas palavras e ações possam ter uma influência direta sobre sua felicidade ou miséria futuras. Serão expostos à tentação. Encontrarão inimigos dentro e fora, mas devem ser instruídos a permanecer firmes na sua integridade, tendo princípios morais para resistir à tentação. As lições dadas a nossa juventude por professores cristãos amantes do mundo estão fazendo um grande mal. As reuniões festivas, as glutonarias, as loterias, as cenas mudas e representações teatrais estão fazendo um trabalho que produzirá um registro com seu fardo de resultados para o juízo.

Todas estas inconsistências, sancionadas pelos professos cristãos debaixo de uma roupagem de beneficência cristã, a fim de coletar recursos para pagar despesas da igreja, têm sua influência sobre a juventude, tornando-a amante dos prazeres mais do que amante de Deus. Pensam que se os cristãos podem incentivar estas loterias e interessar-se nelas e em cenas de festividades, e relacioná-las com coisas sagradas, porque eles não estariam certos em interessar-se por loterias e entrar em


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jogos a fim de ganhar dinheiro para propósitos especiais?

É plano estudado de Satanás vestir o pecado com roupagem de luz para esconder sua deformidade e torná-lo atraente. Pastores e povo que professam a justiça estão se unindo ao adversário de nossa salvação, ajudando-o em seus planos. Nunca houve tempo em que cada membro da igreja devesse sentir sua responsabilidade de andar humilde e prudentemente diante de Deus, como no presente. Filosofias vãs, falsos credos e infidelidade estão aumentando. Muitos dos que tomam o nome de seguidores de Cristo estão, através de um coração orgulhoso, buscando popularidade e se desviando dos marcos estabelecidos. Os claros mandamentos de Deus em Sua Palavra são descartados porque são considerados comuns e ultrapassados, enquanto as teorias vãs e vagas atraem a mente e satisfazem a imaginação. Nesses cenários de festividades na igreja, há uma união com o mundo que a Palavra de Deus não justifica. Cristianismo e mundanismo estão unidos nessas reuniões.

Mas o apóstolo pergunta:

"Porque que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei e entre eles andarei; e Eu serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo. Pelo que saí do meio deles, e apartai-vos, diz


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o Senhor; e não toqueis nada imundo, e Eu vos receberei; e Eu serei para vós Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-poderoso." II Cor. 6:14-18.

Quando estivermos aptos a compreender as tentações e vitórias do Filho de Deus, no severo conflito com Satanás, teremos uma idéia mais correta da grandeza da obra diante de nós, a fim de vencermos. Satanás sabia que, se falhasse, sua situação seria desesperadora. Se tivesse êxito e ganhasse a vitória sobre toda a humanidade, pensou, sua vida e reino seriam estabelecidos.

Nas reuniões caracteristicamente cristãs, Satanás lança suas vestes religiosas sobre os prazeres ilusórios e folguedos profanos, para dar-lhes a aparência de santidade, e a consciência de muitos é tranqüilizada porque meios levantados vão para custear as despesas da igreja. As pessoas recusam dar por amor de Cristo, mas por amor ao prazer e à condescendência com o apetite por motivos egoístas, estão prontas a gastar seu dinheiro.

É porque não há poder nas lições de Cristo sobre beneficência, no Seu exemplo, na graça de Deus sobre o coração para levar os homens a glorificar a Deus com seus recursos, que se tem de recorrer a tal método a fim de sustentar a igreja? O dano infligido à saúde física, mental e moral nestas cenas de divertimentos e glutonarias não é pequeno. O dia final do ajuste de contas mostrará as pessoas perdidas por causa da influência destas cenas de divertimentos e frivolidade.

É fato deplorável que considerações sagradas


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e eternas não tenham poder para abrir o coração dos professos seguidores de Cristo, levando-os a dar ofertas voluntárias para o sustento do evangelho, devido à tentação de festividades e alegrias generalizadas. É uma triste realidade que estas instigações prevaleçam ao passo que as coisas sagradas e eternas não tenham força para influenciar o coração a participar da obra de beneficência.

O plano de Moisés no deserto a fim de levantar meios, foi muito bem-sucedido. Não houve nenhuma exigência compulsória. Moisés não fez grande festividade nem convidou o povo para um lugar de alegria, dança e divertimento em geral. Também não instituiu loterias ou alguma coisa profana a fim de obter recursos para construir o tabernáculo de Deus no deserto. Deus ordenou a Moisés que convidasse os filhos de Israel a trazer suas ofertas. Moisés aceitava as dádivas de cada pessoa que dava voluntariamente, de coração. Mas as ofertas voluntárias vieram em tão grande abundância que Moisés proclamou que já eram suficientes. Deviam cessar seus presentes, pois deram abundantemente, mais do que se poderia usar.

As tentações de Satanás são bem-sucedidas com os professos seguidores de Cristo, quanto à condescendência com o prazer e o apetite. Vestido como anjo de luz, ele citará as Escrituras para justificar as tentações que coloca diante dos homens para induzi-los ao apetite e prazeres mundanos que se adaptam ao coração carnal. Os seguidores professos de Cristo são fracos em poder moral e são fascinados pela sedução apresentada


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diante deles por Satanás, e assim ele ganha a vitória. Como olha Deus para as igrejas que são mantidas por estes meios? Cristo não pode aceitar essas ofertas, porque não são oferecidas por amor e devoção, mas são uma idolatria egoísta. Todavia, o que muitos não fazem por amor a Cristo, farão por amor a delicadas iguarias a fim de satisfazer ao apetite, e por amor aos divertimentos mundanos, com o fim de satisfazer ao coração carnal.

O conflito de Cristo com Satanás no deserto será considerado com sagrado interesse por todos os verdadeiros seguidores de Cristo. Deveríamos ter um sentimento de profunda gratidão ao nosso Redentor pelos ensinos do Seu exemplo sobre como resistir e vencer a Satanás. Jesus não buscou os lugares de alegrias e festividades para obter a vitória tão essencial à nossa salvação, mas Ele foi ao desolado deserto. Muitos nem mesmo contemplam essa cena do conflito de Cristo com o chefe caído. Não simpatizam com o seu Redentor. Alguns chegam a duvidar de que Ele realmente sentiu fome aguda na abstinência de alimento, durante o período de quarenta dias e quarenta noites.

Aquele que sofreu morte de cruz no Calvário certamente sofreu a mais cruciante fome, semelhante à Sua morte por nós. Tão logo começaram os sofrimentos da fome, Satanás estava pronto com suas tentações. Temos para combater um inimigo muito vigilante. Satanás adapta suas tentações às nossas circunstâncias. Em cada tentação ele apresentará alguma insinuação, alguma coisa


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aparentemente boa para se ganhar. Mas, em nome de Cristo podemos ter vitória, resistindo aos seus enganos.

Já se passaram mais de mil e oitocentos anos desde que Cristo andou na Terra como um Homem entre os homens. Encontrou abundantemente sofrimentos e misérias por todos os lados. Que humilhação por parte de Cristo, pois, apesar de subsistir em forma de Deus, tomou sobre Si a forma de servo. Era rico nos Céus, coroado de glória e honra, e por nossa causa Se tornou pobre. Que ato de condescendência do Senhor da vida e glória, a fim de levantar o homem caído!

Jesus não veio aos homens com ordens e ameaças, mas com amor sem paralelo. Amor gera amor; e assim o amor de Cristo, manifestado na cruz, procurou e ganhou o pecador, achegando-o, arrependido, à cruz, crendo e admirando as insondáveis profundidades do amor de Deus. Cristo veio ao mundo a fim de aperfeiçoar um caráter justo para muitos, e elevar a humanidade caída. Mas somente uns poucos dos milhões do nosso mundo aceitam a justiça e a excelência do Seu caráter e satisfarão os requisitos exigidos para assegurar sua felicidade.

Suas lições de instruções e Sua vida santa, se fossem seguidas, evitariam o fluxo da miséria física e moral que tanto tem contaminado a imagem moral de Deus no homem, que escassamente se assemelha ao nobre Adão, como era no Éden, na sua santa inocência. Cada proibição de Deus visa a saúde e eterno bem-estar do homem.

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