Livro - No Deserto da Tentação | Ellen G. White Books

No Deserto da Tentação

Temperança Cristã

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Jesus, nas diferentes maneiras de tentações no deserto. Pensava que se pudesse inspirar o coração do próprio povo de Cristo a descrer de que Ele era o Prometido, poderia desencorajar a Jesus na Sua missão e assegurar os judeus como agentes na execução dos seus propósitos.

Satanás se aproxima do homem como um anjo de luz, tentando-o, como fez com Cristo. Tem atuado para levar o homem a uma condição de fraqueza física e moral, de maneira que possa facilmente dominá-lo e então triunfar sobre sua ruína. E tem sido bem-sucedido em tentar o homem a condescender com o apetite, a despeito do resultado. Sabe muito bem que é impossível ao homem desincumbir-se de suas obrigações para com Deus e seus semelhantes enquanto enfraquece as faculdades que Deus lhe deu. O cérebro é a capital do corpo. Se as faculdades perceptivas forem entorpecidas por qualquer espécie de intemperança, as coisas eternas não serão discernidas.

Temperança Cristã

Deus não dá permissão ao homem para violar as leis de seu ser. Mas o homem, cedendo às tentações de Satanás quanto à condescendência com a intemperança, põe suas mais altas faculdades em sujeição aos apetites e paixões sensuais, e quando isto ganha a ascendência, o homem, que foi criado um pouco menor do que os anjos, com faculdades suscetíveis à mais alta cultura, entrega-se ao controle de Satanás. Este ganha facilmente


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acesso àquele que está preso ao apetite. Através da intemperança, alguns sacrificam a metade e outros, dois terços do seu poder físico, mental e moral, e tornam-se brinquedos nas mãos do inimigo.

Aqueles que querem ter mente clara para discernir os engodos de Satanás devem ter o apetite físico sob o domínio da razão e da consciência. A ação moral e vigorosa dos altos poderes da mente é essencial ao aperfeiçoamento do caráter cristão; e a força ou a fraqueza da mente tem muito a ver com a nossa atitude e utilidade neste mundo, e com a salvação final. É deplorável a ignorância que tem prevalecido concernente à lei de Deus em nossa natureza física. A intemperança de qualquer espécie é uma violação das leis do nosso ser. A imbecilidade está prevalecendo em uma proporção assustadora. O pecado se torna atraente, revestido por uma luz, e Satanás se alegra muito quando pode reter o mundo cristão em seus hábitos diários, sob a tirania do costume, como os pagãos, permitindo ser governado pelo apetite.

Se homens e mulheres inteligentes tiverem suas faculdades morais entorpecidas pela intemperança de qualquer espécie, estarão, em muitos de seus hábitos, muito pouco acima dos pagãos. Satanás está constantemente atraindo pessoas da luz salvífica para o costume e a moda, sem consideração para com a saúde física, mental e moral. O grande inimigo sabe que se predominarem a paixão e o apetite, a saúde do corpo e a força do intelecto serão sacrificadas no altar da satisfação própria, e o homem acelerará sua ruína.


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Se um intelecto erudito segurar suas rédeas, controlando as propensões animalescas e conservando-as em sujeição às faculdades morais, Satanás sabe muito bem que é pequena sua possibilidade de vencer a tentação.

Em nossos dias fala-se da Idade Média e se orgulham do progresso. Com este progresso, porém, impiedade e crime não diminuem. Deploramos a ausência da simplicidade natural e o aumento da tentação artificial. Saúde, força, beleza e longevidade, que eram comuns na chamada "Idade Média" são agora raros. Quase tudo que é desejável sacrifica-se para satisfazer às demandas da vida que segue a moda.

Grande parte do mundo cristão não tem o direito de se chamar cristãos. Seus hábitos, suas extravagâncias e o cuidado do corpo em geral constituem uma violação das leis da saúde e se opõem ao ensino da Bíblia. Estão se preparando no decurso da vida para o sofrimento físico e a fraqueza mental e moral.

Através de seus enganos, Satanás, em muitos casos, tem tornado a vida doméstica cheia de complicações, com o intuito de satisfazer às demandas da moda. Fazendo isto, seu propósito é conservar a mente tão ocupada com as coisas da vida que não possa dar um pouco de atenção ao que é de maior interesse. A intemperança no comer e no vestir tem absorvido tanto a mente do mundo cristão que não tem tempo para se tornar inteligente no tocante às leis da vida, obedecendo-lhes. Professar o nome de Cristo pouco significa se a


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vida não corresponde à vontade de Deus, revelada em Sua Palavra.

No deserto da tentação Cristo venceu o apetite. O Seu exemplo de abnegação e de domínio próprio quando sofreu a atormentadora ânsia da fome, é uma censura ao mundo cristão por sua dissipação e glutonaria. Gasta-se atualmente nove vezes mais dinheiro na satisfação do apetite, na condescendência com a insensata e danosa luxúria, do que é dado para a divulgação do evangelho de Cristo.

Estivesse Pedro hoje na Terra, exortaria os professos seguidores de Cristo a abster-se da luxúria carnal que guerreia contra a alma. Paulo convocaria as igrejas em geral para purificar-se "de toda imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus". II Cor. 7:1. E Cristo expulsaria do templo aqueles que estão contaminados pelo uso do fumo, poluindo o santuário de Deus com sua respiração poluída. Diria a estes adoradores o que disse aos judeus: "A Minha casa será chamada por todas as nações casa de oração. Mas vós a tendes feito covil de ladrões." Mar. 11:17. Diria a tais pessoas que suas ofertas profanas, expelidas de pedaços de fumo, contaminam o templo e aborrecem a Deus. Seu culto não é aceitável porque o corpo, que deveria ser o templo do Espírito Santo, está contaminado. Você também rouba o tesouro de Deus em milhares de dólares, através da condescendência com o apetite desnaturado.


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Se víssemos a norma da virtude e a exaltada piedade, como cristãos, teríamos um trabalho a desenvolver, por nós individualmente, para controlar o apetite, a condescendência que neutraliza a força da verdade e enfraquece o poder moral para resistir e vencer a tentação. Como seguidores de Cristo devemos agir por princípio no comer e no beber. Se obedecêssemos à injunção do apóstolo: "Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (I Cor. 10:31), milhares de dólares que agora são sacrificados no altar maléfìco da luxúria afluiriam para o tesouro do Senhor, multiplicando as publicações em diferentes línguas para serem espalhadas como folhas do outono. Missões seriam estabelecidas em outras nações e então os seguidores de Cristo, na verdade, seriam a luz do mundo.

O adversário está trabalhando nestes últimos dias com grande poder, como nunca antes, para conseguir arruinar o homem através da condescendência com o apetite e as paixões. Muitos dos que estão presos sob o poder escravizante do apetite, são professos seguidores de Cristo. Professam adorar a Deus, ao passo que o apetite é o seu deus. Seus desejos desnaturados por estas condescendências, não são controlados pela razão ou juízo. Os que são escravos do fumo, verão a família sofrer as inconveniências da vida e a necessidade de alimento. Contudo, não têm força de vontade para renunciar ao fumo. Os clamores do apetite prevalecem sobre a tendência


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natural e esta paixão animalesca os domina. A causa do Cristianismo, e mesmo da humanidade, de modo algum seria sustentada se dependesse daqueles que habitualmente usam fumo e bebidas alcoólicas. Se tivessem recursos para usar numa só direção, a tesouraria de Deus não seria reabastecida, mas eles teriam seu fumo e bebidas alcoólicas. A fim de idolatrar o fumo não dirão "não" ao apetite pela causa de Deus.

E impossível que essas pessoas reconheçam as reivindicações e a santidade da lei de Deus, porque seu cérebro e nervos estão amortecidos pelo uso destes narcóticos. Não podem avaliar a preciosidade da expiação e apreciar a vida imortal. A condescendência com a luxúria carnal guerreia contra a alma. O apóstolo dirige-se aos cristãos numa linguagem bem impressiva: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus." Rom. 12:1. Se o corpo é saturado pela bebida alcoólica e contaminado pelo fumo, não é santo e aceitável a Deus. Satanás sabe que não pode ser, e justamente por isto leva suas tentações no tocante ao apetite, escravizando-nos nesta propensão e levando-nos à ruína.

Os sacrifícios dos judeus eram todos examinados com bastante cuidado, para ver se não tinham nenhum defeito ou alguma doença ou qualquer impureza, o que era motivo suficiente para serem rejeitados pelo sacerdote. As ofertas deviam ser perfeitas e valiosas. O apóstolo tinha em vista os requisitos


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de Deus quanto as ofertas dos judeus, quando ele, de maneira muito enérgica, apelava aos irmãos para apresentarem o corpo em sacrifício vivo. Não uma oferta doentia ou estragada, mas um sacrifício vivo, santo e aceitável a Deus.

Quantos chegam à casa de Deus com fraquezas, e quantos vêm contaminados pela condescendência com o próprio apetite! Aqueles que se têm degradado por hábitos errôneos, quando se reúnem para cultuar a Deus, oferecem as conseqüências do seu corpo doentio, tornando-se cansativos aos que os cercam. Como isso deve ser ofensivo diante de um Deus puro e santo!

Uma grande proporção de todas as enfermidades que afligem a família humana são resultado de seus próprios hábitos errôneos, por causa da ignorância voluntária ou da desconsideração para com a luz que Deus tem dado em relação às leis do seu ser. Não nos é possível glorificar a Deus enquanto vivemos em violação das leis da vida. O coração não pode, possivelmente, manter consagração a Deus enquanto se condescende com o apetite. Um corpo doentio e um intelecto em desordem por causa da condescendência contínua com uma danosa concupiscência, torna impossível a santificação do corpo e do espírito. O apóstolo compreendia a importância das condições saudáveis do corpo para o êxito perfeito do caráter cristão. Ele disse: "Antes, subjugo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado." I Cor. 9:27. Menciona a temperança


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entre os frutos do Espírito. "E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências." Gál. 5:24.

Homens e mulheres cedem ao apetite, às expensas da saúde e do poder intelectual, de tal maneira que não podem apreciar o plano da salvação. Que apreciação podem ter da tentação de Cristo no deserto e da vitória que Ele ganhou sobre o apetite? É-lhes impossível ter uma visão sublime de Deus, e reconhecer os reclamos de Sua lei. Os professos seguidores de Cristo se esquecem do grande sacrifício feito por Ele em seu favor. A Majestade do Céu, a fim de pôr a salvação ao seu alcance, foi atingida, esmagada e aflita. Ele Se tornou um varão de tristeza e inteirado na aflição. No deserto da tentação Ele resistiu a Satanás, apesar de o tentador estar disfarçado com as vestimentas do Céu. Cristo, ao ser submetido a um grande sofrimento físico, recusou ceder num simples ponto, não obstante o mais arrogante argumento já apresentado para suborná-lo e influenciá-Lo a renunciar à Sua integridade. Toda esta honra, toda esta riqueza e glória, disse o enganador, Te darei se somente reconheceres minhas exigências. (Mat. 4:9.)

Cristo ficou firme. Que seria, agora, da salvação da humanidade se Cristo fosse fraco em poder moral, como o homem? Não é de admirar que o Céu se enchesse de alegria quando o principal anjo caído deixou o deserto da tentação como um inimigo derrotado! Cristo tem o poder do Pai para


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dar Sua graça divina e força ao homem, tornando-nos possível a vitória por meio do Seu nome. Há poucos professos seguidores de Cristo que escolhem empenhar-se com Ele na tarefa de resistir às tentações de Satanás como Ele resistiu e venceu.

Cristãos professos que gostam de divertimentos, prazeres e banquetes, não podem apreciar o conflito de Cristo no deserto. O exemplo do Senhor em vencer a Satanás, fica perdido para eles. Esta vitória infinita, que Cristo alcançou para eles no plano da salvação, é sem sentido. Não têm interesse, especial na maravilhosa humilhação de nosso Salvador, e na angústia e sofrimentos que suportou pelo homem pecador enquanto Satanás O pressionava com suas diferentes tentações. A cena da provação de Cristo no deserto era o fundamento do plano da salvação, dando ao homem caído as chaves, por meio das quais, em nome de Cristo, pode vencer.

Muitos cristãos professos olham para esta parte da vida de Cristo como se fosse uma guerra comum entre dois reis, não tendo nada de especial sobre a própria vida e caráter. Assim a maneira da luta e a maravilhosa vitória ganha, têm muito pouco significado para eles. As faculdades da percepção estão embotadas pelas artimanhas de Satanás, de maneira que não podem discernir que, aquele que afligiu a Cristo no deserto e determinou privá-Lo de Sua integridade como o Filho do Infinito, será seu adversário até ao fim dos tempos. Apesar de ter falhado em vencer a Cristo, seu poder sobre o homem não está enfraquecido.

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